O regresso que não podia esperar
Afonso sempre contava aos amigos que, por mais longe que fosse, o coração dele tinha a medida exata da sua terra: Mapai, uma aldeia onde o calor do mês de dezembro cheirava a mandioca assada e conversa até tarde. Foi por isso que, quando aceitou um trabalho temporário na África do Sul para juntar algum dinheiro, fez questão de avisar: “Volto no Natal. Quero ver a casa, sentir o chão da minha terra.”
Os meses na cidade grande foram duros — turnos longos numa oficina, quartos apertados, e saudades que vinham à noite. Afonso poupou cada moeda; mandava parte para a mãe e guardava o resto num envelope dentro de um livro. Mas, ao chegar novembro, algo mudou na família: o irmão mais novo ficou doente e a mãe escreveu uma carta pedindo que ele voltasse. Era impossível dizer que não.
Quando disse ao patrão que tinha de regressar, este respondeu com frieza: “Agora não é altura. Temos falta de pessoal. Se saíres, não terás lugar quando voltares.” Afonso sentiu-se encurralado. A oferta de ficar mais um mês veio com promessas de bónus; a opção de ir embora vinha com ameaças de perda de emprego e expulsão do alojamento. Para ele, a escolha era clara — a casa era mais importante que qualquer salário extra.
Na véspera da viagem, tentou sacar todo o dinheiro para a passagem. Foi aí que a confusão começou: o banco havia retido a conta por falta de documentos e, quando explicou, a funcionária elevou a voz. Um vizinho ligou para a polícia, talvez por irritação, talvez por mal-entendido. Policiais chegaram, pediram documentos, e Afonso, cansado e aflito, perdeu a calma. Dizem que houve resistência verbal; ele jurou mais tarde que nunca levantou a mão. Mesmo assim, foi detido por desobediência e levado para a esquadra.
A notícia da detenção chegou à mãe como um soco. No outro lado do telefone, a voz dela tremia: “Volta para casa. Eu preciso de ti.” Afonso tentou explicar, mas o tempo na cela foi corroendo-lhe as certezas. O homem que partira um trabalhador esperançoso viu-se reduzido a um número numa ficha policial. As visitas foram poucas; a distância e a burocracia tornavam difícil qualquer apoio imediato.
Na prisão aprendeu a contar as horas de outra maneira: pelo som das refeições, pelas palavras sussurradas através das grades, pelos passos dos guardas. Era uma rotina dura e humilhante, mas também um espaço onde a humanidade às vezes brotava nas coisas pequenas — um pedaço de pão partilhado, uma história de infância trocada no canto. Afonso conheceu outros que também tinham deixado casas e sonhos, homens com olhos de quem carregava saudade. Conversavam sobre filhos, sobre mulheres, sobre aquele cheiro de terra depois da chuva. Essas conversas foram a sua tábua de salvação.
Enquanto isso, em Mapai, a mãe não desistiu. Procurou ajuda na igreja, falou com o chefe da aldeia, enviou cartas. Um vizinho que trabalhava numa organização de apoio a migrantes ouviu falar do caso e contactou a embaixada. Foram meses de telefonemas, papeis e esperas. Afonso, na cela, viveu cada dia como se fosse um pequeno ensaio para o regresso: imaginava a travessia do caminho de terra, o portão rangendo, o abraço quente da mãe que cheirava a sabão e mandioca.
A reviravolta veio num dia nublado quando um assistente social apareceu na cela com uma pasta gasta. “Há um pedido de verificação do teu caso,” disse. Afonso ficou calado, as mãos trémulas. Um advogado voluntário conseguiu provar que a detenção fora desproporcional e que ele não oferecera resistência física. Documentos corrigidos, garantias dadas, e por fim, assinaram a autorização de libertação.
Sair da prisão foi como acordar de um sonho pesado. Afonso sentiu os pulmões encherem-se de ar diferente — ar de liberdade, mas também de responsabilidade. A viagem de regresso foi uma mistura de ansiedade e alegria contida: reencontros com estradas que ele conhecia, localidades com nomes que lhe soavam a música, a passagem pela fronteira onde mostraram os papéis e, finalmente, o táxi que o deixou à entrada da aldeia.
A recepção foi simples e verdadeira: a mãe correu, tropeçou, agarrou-o e chorou até que a respiração dela se igualasse à dele. Os vizinhos apareceram com pequenos pratos e sorrisos, e o irmão, curado, trouxe a mão para o ombro dele como se dissesse: “Estavas aqui dentro, mas já estás em casa.”
A história de Afonso não terminou com um final perfeitamente limpo. Ele sabia que tinha que resolver pendências legais e que o episódio deixara marcas. Mas também aprendeu algo essencial: a urgência do regresso às raízes, o valor de pedir ajuda e da comunidade, e que o caminho para casa nem sempre é reto — passa por portas que se abrem graças à persistência dos que ficam.
No Natal seguinte, quando o fogo do lume estalou e as vozes se misturaram em canções, Afonso sentou-se perto da mãe e, sem grandes palavras, colocou a mão no bolso e sentiu o papel do velho envelope — o dinheiro que guardara antes de partir. Não era muito, mas ali estava inteiro, como um lembrete de que algumas coisas só se recuperam estando em casa. E, enquanto a noite caía sobre Mapai, ele olhou para o céu com a certeza tranquila de que, por mais estrada que se faça, o regresso sempre vale a pena.

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